17 de abr de 2009

Indelicadeza, e daí?

nesta última terça aconteceu um fato comigo que me fez pensar muito como o permanente "estado" de medo que vivemos no Rio está minando sorrateiramente, porém sem cessar, as noções mais básicas da convivência entre pessoas. é uma violência quase invisível, muito diferente da escandalosa violência à mão armada que estampa os jornais todos os dias. mas ela é tão perigosa quanto a segunda.

uma das definições para a palavra "autoridade"  considera que nem todo o poder estabilizado é Autoridade, mas somente aquele em que a disposição de obedecer de forma incondicional se baseia na crença da legitimidade do poder. Ou seja, o poder da Autoridade é considerado legitimo por parte dos indivíduos ou grupos que participam da mesma relação de poder. é a tal autoridade legitimada que os cidadãos deveriam ter na polícia ou nos políticos, por exemplo.

pois bem, neste dia eu voltava de bicicleta para minha casa na Urca, pensando justamente que toda minha vida, desde os tempos de escola, fui muitas vezes acusada de "marrenta" simplesmente porque nunca aceitei a expressão "não pode". "Não pode" para mim é coisa de país que viveu sob ditadura e que fez com que seus cidadãos simplesmente tivessem que baixar a cabeca para não morrer. Mas eu sempre questionei esta expressão, pedindo explicações para o "não pode". Sei que azucrinei muita gente com esta atitude, mas eu sempre achei que tinha o direito de saber o porquê das coisas. Sempre fui partidária do debate e da pesquisa para entender porque as pessoas preferem exercer esta forma de micro-poder do que escolher o diálogo. Depois com a idade fui entendendo que pensar dá trabalho e por isso muitos escolhem o caminho mais fácil. Tudo bem, mas esta não é a minha escolha, mesmo que eu tenha que sofrer mais por isso.

voltava eu na pista da Av. Pasteur, sentido de quem entra na Urca, na minha bike reformada que fui buscar no Leblon e pensando, como (ufa!) ainda consigo sentir alívio quando entro aqui e deixo a "selva" pra trás, apesar de ver como este bairro, por ser tão pequeno, funciona como um laboratório de testes de tudo que há de melhor e pior nesta cidade. estava quase chegando na altura do primeiro sinal da Pasteur, num cruzamento onde os carros que querem entrar na Lauro Muller tem de esperar. Estavam ali dois carros, um pequeno e um carrão da polícia civil, provavelmente uma blazer. Eu estava bem perto dos dois, bem à vista.

quando passei na frente do primeiro carro, que ficou absolutamente parado, o carro da polícia deu uma arrancada. eu, para não me chocar de encontro a este carro, enfiei a mão do meu freio. minha bicicleta deu um pinote por trás e eu voei no asfalto, me estatelando no chão ali do cruzamento. uma mulher que dirigia um carro e que viu a cena acontecer parou e começou a berrar sem parar : seus filhos da puta, vcs podiam ter atropelado ela, vai fazer uma queixa, vai fazer uma queixa contra estes filhos da puta!

devem ter passado uns 2 minutos até que eu entendi a situação, levantei e só aí percebi que o carro da polícia havia parado no início da Lauro Muller. fui até lá e vi que era dirigido pur um policial negro enorme de gordo (como pode haver policiais tão gordos?) e uma policial mulher bem morena ao lado. aí eu perguntei porque (minha mania de porquês) eles não tinham ido lá ver como eu estava e ela me respondeu: vc estava errada, o sinal estava aberto para nós. ao que eu respondi: mesmo se eu estivesse errada (e provavelmente nõa estava, pois o carro ao lado não se mexeu), eles tinham me visto pois eu estava muito próxima e que, pelo código do detran, pedestres e ciclistas tem prioridade. e ainda completei: no mínimo vcs tinham que ter saído do carro pra ver a situação. que indelicadeza da polícia! e ela falou: é isso mesmo!

ainda consegui memorizar a placa, fui até a cabine da Urca que me disse que iria passar o caso para o "comandante". eu queria pelo menos um pedido de desculpas e checar se não haveria uma punição interna pra estes dois. quem sabe lavar banheiros pudesse ensinar um pouco de modéstia e educação a eles. perguntei ainda se valia eu ir até o batalhão fazer queixa e ele me disse que "achava que não ia dar em nada". claro, eles são super corporativistas, como vão punir uma coisa tão pequena?

eu devo estar louca falando de delicadeza, de pedir desculpas. por sorte não aconteceu nada comigo, apenas alguns arranhões pelo corpo. mas estou tremendo até agora, pois poderia ter sido atropelada por outro carro que viesse à toda. e fiquei pensando no conceito de "autoridade" e a que tipo de autoridade estamos subjugados. a quem devemos respeitar, quem nos representa, nos políticos com seus castelos de cinderela. pensei sobretudo nos cidadãos cariocas que moram no subúrbio e nas favelas e que sofrem humilhações nas abordagens da polícia. eles são mais invisíveis que esta violência invisível que tomou conta das nossas vidas.

um policial então "não pode" pedir desculpas? 
só mesmo rezando pelo destino desta cidade, purgatório da beleza e do caos.

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